sexta-feira, 1 de maio de 2015

50 tons de qualquer cor

Bem antes de explodir a tal mania de livros de colorir para adultos, eu já tinha o meu Jardim Secreto. Foi fuçando no site da Saraiva (tem passatempo melhor?) que eu o encontrei.
Junto do pedido do livro já emendei duas caixas de lápis de cor e uma de giz de cera porque, gente, quanto maior a possibilidade de cores, mais legal se torna o ato de pintar.

E o livro pede isso. São infinidades de folhinhas, pétalas, galhos e bichinhos que precisam de uns, sei lá, 50 tons - não de cinza, pelamordedeus - mas de qualquer outra cor que você queira dar a eles.
Estou na minha terceira ilustração.

Eu demoro. 
Sou perfeccionista na pintura, gosto de escolher cuidadosamente as cores e amo ver a imagem se colorindo aos poucos.

E o título?
Tudo o que é secreto desperta inúmeras sensações. E com um jardim secreto não poderia ser diferente. Conforme você vai pintando, vai descobrindo alguns segredos desse jardim. São chaves, baús, libélulas, gatinhos e outras tantas coisinhas.

Talvez, meu encantamento esteja justamente na graça e na beleza desta metáfora de relações humanas: cada um de nós pode ser um jardim secreto; cabe ao outro, desejoso de nos conhecer melhor, ir desvendando aos poucos nossos segredos, nossos desenhos (desejos?), nossos sonhos.

Não sei dizer se o livro é terapêutico - já li muito isso por aí.
Mas posso afirmar que a vida, pelo menos no papel, fica muito mais colorida. :)

O meu Jardim Secreto

domingo, 14 de dezembro de 2014

Um livro especial

Li muito este ano. Sei que muito é algo bastante relativo, ainda mais quando se trata de leitura. O que quero dizer é que, além do meu trabalho do ano todo que envolveu muita leitura, eu li 30 livros.
Bastante coisa boa. E algumas porcarias.
O que é positivo, quando se coloca na balança.
Não farei aqui uma booklist com as estrelinhas que dei a cada um dos livros lidos. Mesmo porque isso eu já faço para mim mesma.
Mas, quero destacar uma descoberta bem significativa.

Pela primeira vez, li romances em quadrinhos. E me apaixonei.
Um deles, dentre os cinco desse tipo que li, considero o melhor. Porque foi o primeiro. Porque tem uma escrita bem inteligente. Porque as ilustrações são um primor. Porque me abriu algumas portas.

Você é minha mãe?, de Alison Bechdel, é da Quadrinhos na Cia. Comprei sem querer, durante uma ida à locadora (sim, sou do tipo que ainda vai a locadoras. Mesmo que seja para sair de lá com um livro, ao invés de um filme).

A história narra a trajetória da autora (o livro é autobiográfico) na compreensão de si mesma, a partir da relação dela com a mãe. A narrativa é toda feita por um viés psicanalítico, com base nas teorias de Freud, Winnicott e Alice Miller.
A tentativa da personagem de se resgatar através da história dela com sua mãe é tocante. E profundamente sincera.
Em busca de respostas e de outras perspectivas, Alison nos inquieta e nos convida a vasculhar também as nossas próprias histórias. Como filhas e, principalmente, como mães.

Foi o que fiz. O que estou tentando fazer, aliás. Li e reli muita coisa de Freud e Winnicott. Já Alice Miller foi um achado. Nunca tinha ouvido falar dessa psicanalista polonesa que teve sua obra toda dedicada ao estudo de como os maus-tratos às crianças contribuem de forma expressiva a todas as dores do mundo. Ainda estou trilhando o caminho dessas leituras. Quanto mais eu leio, mais percebo o quanto ainda há para eu ler e isso me angustia um pouco. Mas de um jeito bom.

*

Em um certo momento, Alison, em busca da aprovação de sua mãe, mostra a ela o rascunho do livro que está escrevendo (o livro que estamos lendo, na verdade). A mãe demora muito para lhe responder e, quando finalmente responde, diz algo do tipo Bem, não foi nada disso. Mas, se esta é sua percepção dos fatos, não posso fazer nada.

E acredito que seja assim mesmo. Nossas relações estarão sempre fundamentadas pelas percepções do outro. Não temos como interferir nisso.
Por mais que tentemos acertar com os filhos, inevitavelmente erramos. E são nossos erros que constituirão de forma mais consistente os sujeitos dessa relação tão rica e complicada entre mãe e filho.
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Meu livro todo cheio de marcações :)



quinta-feira, 6 de março de 2014

Nosso coração de pedra-pomes

   "Sem romance as pessoas se tornam esquecíveis. E o ser humano só não é insuportável numa situação: quando nos apaixonamos por ele”.
Lawanda Escapulária

Nunca fui de grifar livros, colocar post-its ou fazer anotações nas margens. Uma aflição de marcá-los para sempre.
Vivo relendo meus livros e me imaginava olhando uma frase grifada e pensando "por que catzzo marquei isso aqui mesmo?".
Pois bem. Tudo mudou com "Meu coração de pedra-pomes".

Lawanda tem 19 anos, trabalha como faxineira em um hospital (graças ao sistema de cotas para deficientes), coleciona besouros, costura borboletas na calcinha, inventa macumbas e presta serviços clandestinos aos pacientes. É agitada, tem uma sexualidade bastante exacerbada, não tem pudores e, muitas vezes, é bem nojenta.
Através de sua visão de mundo (é Lawanda quem narra a história), conhecemos a personagem e a sua vida que - assim como seu uniforme - é tão sem predicados.

Foram duas tardes de leitura e uma infinidade de marcações e anotações ao longo da história. Não por ela ser profunda. Não é.
Mas é irreverente. E diverte. E faz pensar sim, por que não?
Por exemplo, eu poderia elaborar um estudo comparativo entre Lawanda e Macabéa. Mas não vou porque 1) estou com preguiça, 2) isto não é um ensaio literário e 3) Clarice para mim é sagrada e tenho medo de cometer um ato profano com a comparação.
De qualquer forma, assim como Macabéa (e agora sem medo de afirmar), Lawanda não é uma personagem para ser apenas lida; deve ser sentida.
E eu a senti. Bastante.

Lawanda, a louca de pedra-pomes.

Talvez sua deficiência seja a de pensar demais. Sobre cada detalhe da vida. Sobre como abraçar seus próprios tormentos enquanto esfrega incansavelmente o chão do hospital. Já que não há mistério por trás da sujeira visível.
O mistério. Ele fica ali, escondido na sujidade que se acumula nos cantos mais recônditos (da alma?), livre da vassoura dos outros.
E da nossa própria.
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Meu coração de pedra-pomes. Todo marcado ;)





domingo, 13 de outubro de 2013

O piano e as asas


Duas meninas.
Irmãs.
Uma queria ter asas. A outra queria um piano.
"Promete não voar muito longe quando tiver suas asas?".
"Só voo até onde o som do seu piano alcançar".
Davam os dedinhos: "Promete?". "Prometo!".
E riam.
O piano chegou antes das asas. E ela, todos os dias, sentava-se a sua frente e ensaiava algumas músicas. Enquanto a outra rodopiava em volta. Mesmo sem as asas, já ensaiava seus voos.
Queria a música perfeita e, insistente na perfeição, as mais belas notas flutuavam pela sala.
As duas. Todos os dias. Faziam música. Faziam sonhos.
"Veja como suas asas estão grandes. Você já pode voar".
Virou-se de costas para o espelho e percebeu as asas mais lindas que jamais pudera imaginar.
Abriu um sorriso tão doce e pediu: "Toque para mim!"
Com as mãos trêmulas, sentou-se no banco. Seus dedos finos e compridos alisaram as teclas do piano. Fechou os olhos e tocou.
Perfeita.
Quando parou, viu que não havia mais ninguém por perto.
A danada já tinha voado.
Ela sabia: longe, longe.
Chorou.
A música. Gravada no coração da irmã.
E agora, para sempre, por mais distante que voasse, ainda poderia escutá-la...
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domingo, 29 de setembro de 2013

Paraíso

A placa do carro da frente dizia "SP - Paraíso".
Ficou olhando devagar.
O carro comprido e preto mostrava um brilho lustroso em meio à poeira da estradinha onde estavam parados.
E, enquanto ele ia lento e pesado, jurou ver nas laterais do banco da frente umas peninhas brancas que pendiam das costas do motorista. Quis descer e correr até ele.
Mas o trânsito andou.
Que pena.
O Paraíso esteve logo a sua frente e ela deixou que ele fosse.
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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Marte

Enquanto as amigas gritavam que iriam sumir no mundo, ela só pensava em sumir do mundo.
Tinha a terrível mania de complicar as coisas e, às vezes, desejava apenas ser o criado-mudo feliz de seu quarto fechado.
Um dia, leu a notícia: "Abertas as inscrições para quem quiser morar no planeta Marte".
Então ela, de fato, poderia sumir do mundo? Dobrou o pedaço de jornal em três partes e o colocou com cuidado embaixo do travesseiro.
Começou a se planejar.
Seria uma viagem sem volta, dizia a notícia.
Ótimo, ela pensou.
A ocupação do novo planeta está prevista para iniciar em 2023, dizia a notícia.
Fez a conta. Ainda estaria relativamente jovem em 2023.
Entrou no site de inscrição. Bastante detalhado, solicitava muitas informações a respeito de biotipo e estado de saúde. Fez o possível para responder de forma verdadeira, apesar de omitir algumas questões e enfatizar outras. "Como em um currículo", disse em voz alta na tentativa de se justificar. Aliás, era assim mesmo que estava encarando a inscrição: iria enviar um currículo para, quem sabe, ser selecionada a realizar o maior sonho de sua vida.
A campainha tocou.
Ela não quis atender.
De repente, as coisas deste mundo lhe pareceram fugazes demais.
Terminou a inscrição satisfeita por achar que preenchia todos os requisitos de uma moradora de Marte. E foi se deitar. Não sem antes dar uma boa encarada em seu criado-mudo e desejar-lhe boa noite.
Em dez anos estaria em outro planeta. Acreditou nisso.
E, até lá, viveria aqui como uma marciana. Assim, tentando desvendar um mundo ao qual, na verdade, nunca pertenceu.
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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O telefonema

Nunca esperou por uma ligação depois da virada do ano. Afinal, quem importava estava junto e, quem estava longe, ou já não estava mais ou achava não importar muito.
O ano estava indo embora e tinha sido especial. Nem tanto pelos acontecimentos, mas pelas pessoas que havia conhecido. Pessoas, não. Pessoa. 
Não era muito boa em conhecer pessoas e estava bem satisfeita por ter conhecido uma.
"Posso ligar pra você depois de meia-noite?", foi a pergunta da amiga.
E, se achava impossível se afeiçoar mais a alguém que há pouco tempo lhe era desconhecida, nesse momento o impossível se fez possível. "Pode!"
Meia-noite.
Beijou o marido, os filhos, agradeceu pelo ano ido e deu boas vindas ao que acabava de chegar.
E o telefone tocou. 
Tão bom quando os combinados são cumpridos!
Recebeu emocionada o desejo de um ano novo feliz.
E desejou como nunca ser feliz. 
Porque a vida, essa que já a havia sacaneado tanto, parecia ter finalmente dado uma trégua.
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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Preferiria não fazer

Ah, Bartleby! Ah, a humanidade!
Essas são as duas últimas frases do conto de Herman Melville, "Bartleby, o escrivão".
E estão ecoando para sempre dentro de mim.

Imagine você: seu chefe lhe pede algo como, sei lá, escrever a ata de uma reunião. E você, com toda calma e seriedade do mundo, responde a ele "Preferiria não fazer".
Assim é Bartleby.
Ao usar enfaticamente a expressão "I would prefer not to" (que algumas traduções apresentam como "Acho melhor não"), o personagem quebra completamente a expectativa de seu chefe advogado. Que não sabe como reagir. Que fica confuso. Que tem vontade de socar a cara de Bartleby e só não o faz porque o julga uma criatura honesta e extremamente passiva. "Se houvesse alguma inquietude, raiva, impaciência ou impertinência em seus modos, sem dúvida eu o teria demitido bruscamente do meu escritório".

Há tantas coisas que podemos preferir nesta vida. Fazer um trabalho chato certamente não é uma delas.
E aí está toda a força do personagem: ele não recusa o trabalho; ele só afirma que preferiria não fazer. Como obrigar alguém a preferir algo?, me diga, por favor.
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Meu primeiro emprego, enquanto ainda cursava a faculdade, foi de atendente de telefone em uma já extinta empresa telefônica. Eu tinha uma chefe mais ou menos boazinha: mais porque sempre me chamava para um café, conversava amigavelmente comigo, se interessava por mim; menos porque vivia me pedindo coisas extras para fazer, além de minha simples função de atender telefonemas.
Um dia, decidi que não queria ir trabalhar. E não fui. No dia seguinte, a chefe veio até mim e perguntou o motivo de minha falta. Não me dei ao trabalho de inventar uma mentira. Nem de contar alguma historinha triste para me justificar (e olhe que, na época, historinhas tristes não me faltavam).
"Porque eu quis", foi o que lhe respondi. Percebi que essa resposta a desconcertou completamente. E ela ficou alguns bons segundos parada, olhando pra minha cara (de pau, ela devia estar pensando) até que eu tomasse a iniciativa de voltar ao meu trabalho.
Nunca mais tocamos no assunto. E ela continuou do mesmo jeito, mais ou menos boazinha.
Talvez o fantasma de Bartleby tivesse baixado em mim naquele momento. Ou o do chefe advogado e narrador do conto tivesse baixado nela.
Vai saber.

O fato é que Bartleby é um personagem fascinante. E muito esquisito. E que com uma fala esquisita coloca todos a sua volta em situações igualmente esquisitas.

Enfim, um texto fantástico. Que você deveria ler. Mesmo não preferindo...

Ah, Bartleby.
Meu herói.
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domingo, 30 de junho de 2013

Perdão

Um dia. Na grama seca do quintal de sua casa não menos seca, apareceu um punhado de flores amarelas.
Arrancou-as todas sem dó.
Tirou cada uma de suas pequeninas pétalas e as guardou num copinho de plástico velho.
A vida tinha lhe pedido perdão.
Mas veio tarde demais.
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domingo, 9 de junho de 2013

As três mulheres do adeus

Não eram bonitas. Tampouco elegantes. Mas eram amigas e isso lhes bastava. Andavam as três de mãos dadas, balançando os braços e rindo alto. Trocavam olhares cúmplices, segredavam uma no ouvido da outra e viviam assim, juntas. Carregavam no pulso uma pulseira dourada. Cada uma com as iniciais das outras duas em pedrinhas de strass. Porque brilhava bastante.
Costumavam sentar no meio-fio da calçada e passavam a tarde numa morosidade de cochichos, carinhos e cochilos.
No entanto a vida – sempre ela, aliás -  tratou de separá-las.
A primeira, sem escolha, se mudou com a família para uma cidade bem distante.
A segunda, sem muito querer, entrou na universidade e, traidora, foi se engraçar com os estudos.
A terceira, por puro protesto, trancou-se no quarto e dele não saiu nunca mais. Pendurou a pulseira ao lado da cama e se convenceu de tê-la pendurado não por saudade. Era só pra vê-la brilhar no escuro, repetia a si mesma todas as noites.
Em um dia triste, uma delas tomou coragem e escreveu a suas amigas: tinha vontade de encontrá-las novamente.
Estabeleceu-se, assim, uma infinidade de trocas de e-mails. Marcavam, desmarcavam, marcavam de novo. Por fim, o encontro ficou combinado na cidade onde cresceram e continuava sendo o mesmo lugar da terceira amiga que, por puro protesto, nunca a havia deixado.
O dia marcado, um domingo. E o encontro deveria acontecer numa pracinha por onde tantas vezes caminharam. A hora: três horas. Uma pra cada amiga, porque sempre muito bem souberam andar junto do tempo.
A primeira, então, se organizou toda para a viagem: tingiu o cabelo, pintou as unhas e escolheu o vestido.
A segunda adiantou os estudos. Ia passar o domingo sem olhar os livros.
E a terceira, trancada no quarto por puro protesto, passou a manhã ensaiando a sua saída. Tirou a pulseira da parede e a colocou no pulso, sem se importar com os pontos de ferrugem. Também nem se deu conta de que já estava bem apertada. Reparou apenas no brilho dos strass. E nas iniciais de suas amigas.
Então, às três horas de um domingo qualquer numa pracinha da cidade, as três mulheres se reencontraram. E se abraçaram por um tempo que só elas poderiam dizer. E riram das coisas antigas pois das novas não sabiam rir. E andaram pela calçada balançando os braços. Sem dar as mãos. Algumas coisas se perdem com o tempo e não há reencontro para trazê-las de volta.
De repente a terceira, por puro protesto, ergueu o braço e deu adeus a um carro que passou. Talvez só quisesse mostrar às outras a pulseira guardada e lembrada para o reencontro. Ou, talvez, só quisesse mostrar a si mesma a saudade de um tempo de pulseiras e  iniciais.
As amigas, porém, pareceram não enxergar a verdade por trás desse adeus. E elas riram e, sem muito pensamento, repetiram o gesto a um outro carro. E a um outro. E a outro.
As três agora andavam lado a lado, os ombros grudados e erguendo os braços para sempre, num adeus a todos pelo caminho: carros, passantes, cachorros e pássaros, até.
E foi assim. Que as amigas se reencontraram de fato. E enfim.
E foi assim. Que a terceira amiga, de repente, viu sua pulseira arrebentar e rolar até a sarjeta. E não voltou para tirá-la de lá. Sequer olhou para lá.
Nesta noite, ela decidiu dormir sem o brilho das pedrinhas.
E estava tudo bem.
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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sobre crianças e balões


Acho bem emocionante ver uma criança segurando um balão. Porque logo ele estoura. Porque logo ela o perde. Porque é só uma bola cheia de ar. Porque é só.
E quando ele escapa da mão da criança e sai voando... não sei de quem sinto mais pena. Se da criança ou do balão.
Quando morei no Chile, quase todos os dias buscava a pé meu filho na escola. Num desses dias, ele saiu de lá carregando um balão vermelho.
Um balão vermelho! Verdadeiro clássico dos balões.
Lembro-me de querer amarrar o balão no carrinho de bebê, mas meu filho queria ele mesmo segurá-lo. Deve ser bom para uma criança de três anos ter algo sob sua inteira responsabilidade. E meu filho queria ter o balão. E eu, com um aperto no coração que só as mães com crianças segurando balões sentem, deixei.
Lembro-me também de que lhe pedi muito que o segurasse firme. Estava ventando e os ventos carregam tanta coisa... principalmente balões.
Quando estávamos quase chegando em casa, ele o soltou. Talvez sua ideia fosse justamente esta: ver o balão voar. Mas, quando viu que voava mesmo e que o vento é implacável em levar (ventos levam, meu filho. Eu avisei tanto! Que diabo de expressão mentirosa esta "que bons ventos o trazem"!), ele chorou. Porque não queria perder o balão vermelho.
Eu não queria perder aquele balão vermelho!
Só que voou.
Não tão alto que eu não pudesse correr atrás para tentar alcançá-lo.
Larguei o carrinho e a criança na calçada. E corri atrás do balão.
Meu filho chorava tanto! (Hoje já nem sei mais se foi por ter perdido o balão ou por assistir à mãe correr entre os carros, numa avenida movimentada, atrás de um balão vermelho).
Não consigo explicar muito bem o que se passou então. Sei que os carros foram diminuindo a velocidade e um deles parou. De dentro, saiu um homem. Que largou seu carro parado no meio da avenida e alcançou o balão para mim.
E, às vezes, me pego tentando lembrar o rosto desse homem que salvou o nosso balão vermelho.
O meu balão vermelho.
Mas eu não lembro... E me dá uma tristeza!
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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um mês e meio

Tinha lido que uma pessoa passa em torno de 24 anos da vida dormindo. Outros 4 anos são gastos em filas. Tomando banho e fazendo sexo: 3 meses.
Pegou uma calculadora e começou a fazer contas.
Até gostava das repetições do dia a dia e tal, mas aquilo a assustou.
Sabia que a rotina era um luxo infalivelmente breve, mas constatar em números as repetições que ainda lhe eram de direito não foi muito agradável.
Ela já havia dormido metade do tempo que dormiria até sua morte. Das filas não quis saber e quase implorou para chegar logo aos 60 e, quiçá, se livrar delas.
Banho e sexo: apenas um mês e meio até morrer. Um-mês-e-meio!
Em breve entraria em uma contagem regressiva.
Jogou fora as pílulas para dormir (quem precisa delas quando se tem uma estatística dessa?), tomou um longo e quente banho e chamou o marido.
Um mês e meio passa muito rápido.
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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Especialidade: morrer de


Era especialista em morrer: morria de amor, morria de saudade, morria de raiva, morria de fome, morria de culpa, morria de dó. Morria, enfim.
Porque tudo para ela era extremo e, se não fosse, não havia razão de ser. E era justamente na morte que ela enxergava a possibilidade da vida.
Foi então que viu aquela plaquinha na porta, escrita com letra torta e canetinha barata: “Não diga nada. Não pergunte nada. A cigana irá lhe contar tudo”.
Se tinha outra coisa da qual também morria era curiosidade. E ela entrou. Talvez tenha ficado lá dentro uns trinta minutos. O que ouviu, nunca ninguém irá saber.
Só o que se soube depois foi que, numa noite de céu bem estrelado, depois de vestir sua camisola transparente, escovar os dentes e usar o fio dental, ela pegou alguns de seus livros preferidos, sua sacola de cartas e saiu. Descalça.
E morrendo de rir.
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Noite Estrelada, V. Van Gogh

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Lá em Badarve

Existe um certo mistério nas pessoas que vão vivendo a vida sem pensar muito, sem complicar muito. Vão fazendo o que têm de fazer e pronto.
Confesso que tenho um pouco de inveja dessas pessoas.
Quando criança, costumava passar alguns dias do ano na fazenda de uma amiga, no interior de Minas. Uma das coisas de que mais gostava era visitar a casa do caseiro dessa fazenda. Gostava porque ele tinha vários porquinhos, porque as galinhas do quintal sempre tinham muitos pintinhos, porque sempre havia várias crianças felizes e barrigudinhas brincando na terra e, principalmente, porque ele sempre sabia onde estavam as coisas que queríamos para brincar. Uma dessas coisas era uma corda grande e grossa, que iríamos usar para capturar um bezerro. O Sr. Caseiro, então, nos respondeu sem tirar os olhos do fumo que enrolava: "Ah, tá lá em Badarve".
Badarve. Que lugar seria esse, santodeus.
Na minha cabecinha de vento, Badarve logo se transformou no lugar mais legal do mundo. Uma espécie de Pasárgada das crianças e, ai!, como eu quis ir embora pra Badarve.
Não fui.
Porque logo descobri que Badarve era logo ali, embaixo da árvore. E, então, já nem teve mais graça achar a corda e eu já nem queria mais capturar o bezerro.
Mas hoje, quando estou bem triste, penso na minha Badarve que nunca existiu. E me lembro do homem que, sem tirar os olhos do fumo, ia vivendo sua vida e fazendo o que tinha de fazer. Assim, sem nem se preocupar com além de seu quintal, de suas galinhas, de seus porquinhos e de suas crianças barrigudinhas.
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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Volte duas casas. E espere a próxima rodada.

Um dos meus jogos preferidos era o Jogo da Vida. Mas jogá-lo comigo não devia ser muito desafiante: enquanto todos tinham como objetivo chegar ao final com o máximo de dinheiro possível, eu só queria cumprir o percurso e ser feliz. Então, sempre que havia uma bifurcação em que eu pudesse escolher entre me formar e ter um filho, obviamente eu escolhia ter um filho (meu ideal de felicidade... vai vendo). E adorava encher meu carrinho vermelho de crianças rosas e azuis.
E quando eu tinha que visitar uma tia no interior e ficar uma rodada sem jogar? Todos riam da minha cara. Mas eu nem ligava, porque o que eu queria mesmo era imaginar meus filhos - que a essa altura do campeonato já tinham nomes e idades - correndo pelo sítio dessa tia, brincando na terra e subindo em árvores.
Hoje, fico pensando no jogo da minha vida. E acho que continua sendo meu jogo preferido, embora às vezes me sinta um pouco cansada de jogá-lo.
Gosto de imaginar em que parte do tabuleiro estou: já devo ter passado da metade e não tenho um carrinho vermelho cheio de crianças. Mas tenho um carrinho preto com duas delas, as quais me enchem de alegrias e desafios.
E, apesar de ter avançado bastante, não ligo se, de repente, eu tiver de voltar duas casas e esperar a próxima rodada. Afinal, continuo apenas querendo cumprir o percurso... E ser feliz.
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terça-feira, 2 de abril de 2013

As cartas que nunca li

É quando escrevo que mais me faço ser, que sinto melhor minha existência, que me encontro. Ou que me perco de vez, quem sabe.
Gosto de escrever para mim: tenho caderno de tudo o que se possa imaginar; tenho diários de viagem, tenho blocos de anotações…
Gosto de escrever para além de mim: tenho blog, tenho tumblr… e não faço ideia de para onde meus textos vão.
Gosto de escrever para os outros: cartas que mando, cartas que gostaria de mandar, cartas.
E tenho mania de fazer listas: do que comi, do que quero ler, do que vivi, do que ainda quero viver, do que não quero nem ver. Lista de amigos, lista de pessoas irritantes, lista de nomes - de filhos que nunca terei -, lista do que listar.

Susan Sontag também gostava muito de escrever (e adorava uma listinha boba, vejam só). Ela escreveu em cadernos durante muitos anos: dos quinze aos, sei lá, setenta anos. Depois que morreu, seu filho resolveu publicar seus cadernos: são os Diários de Susan Sontag.
São três volumes. No Brasil só tem o primeiro, por enquanto.


Amo ler diários e biografias. Mas ler os Diários de SS me causou um certo mal estar. Os escritos, ainda que editados por seu filho, são tão íntimos! Fiquei imaginando se, algum dia, Sontag desejou vê-los impressos e publicados. E me deu um nó no peito só de pensar que não.
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Outro dia peguei uma caixa de sapato toda fechada com fita crepe. Dentro da caixa há cartas e mais cartas de minha mãe para meu pai, desde o tempo de namoro (meados de 1960) até o casamento (1969). Sempre soube da existência dessa caixa, mas nunca tive coragem de abri-la.
Uma caixa com uma marca de sapato que já nem existe mais, cerrada com fita crepe amarelada e cheia de carta!
Um verdadeiro tesouro.
Não sei se um dia minha mãe imaginou que eu fosse dar tanto valor a suas cartas de amor.
E me dá um nó no peito só de pensar que não…



O vendedor de flores

Todos os dias eu o vejo no semáforo: o vendedor de flores.
Carrega vários pequenos buquês de rosas e usa terno. Um terno preto, sob sol ou sob chuva, numa esquina bem movimentada do centro da cidade.
Nunca vi ninguém comprar um daqueles buquês. Eu mesma nunca comprei, embora sinta uma vontade imensa de abrir o vidro do carro e chamá-lo. Não sei por quê, já que não desejo as flores. E também não desejo o vendedor.
Talvez apenas para convidá-lo a tirar aquele paletó, tomar um café e saber um pouco mais daquele senhor que carrega, além das flores nas mãos, um sorriso no rosto.
Acho um verdadeiro mistério o sorriso de algumas pessoas. Sorriso verdadeiro, que vem da alma. Poucos o têm.
Mas o tem o vendedor de flores. E como gosto de olhá-lo ali, tentando vender seus buquês enquanto o sinal não abre.
E penso que, um dia, eu deva comprar um.
Porque assim, quem sabe, eu possa retribuir ao homem que vende flores e distribui sorrisos.
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tom roberts:  going home 1889.

A culpa é do Fidel!


Eu sempre quis ser filha de pais revolucionários, engajados políticos e tal. Acho que porque meus pais nunca foram engajados em nada e sempre pensaram em política como a maioria das pessoas pensa: ou seja, eles não pensavam muito.

Nas eleições de 1989, resolvi ser uma revolucionária e engajada política, mesmo estando longe de poder votar e sem nem saber bem o que tais coisas representavam.
Arrumei vários adesivos, botons e santinhos do Lula e passava o dia com eles colados na roupa, cantando o jingle "Lula-lá/ brilha uma estrela!".
Isso irritava meus pais, que iam votar no Collor e olhavam para meu posicionamento político com grande desdém.

Mas vê-los irritados me fazia acreditar que realmente eu estava sendo super revolucionária...
Nunca fui revolucionária.
Nem engajada política.
A última vez que saí gritando pelas ruas foi em 1992, no movimento dos Caras-pintadas para o impeachment do então presidente Fernando Collor.
(Hoje, para dizer a verdade, nem sinto tanto orgulho de ter feito parte de um movimento tão manipulado...)

Mas, e se realmente eu tivesse sido filha de pais revolucionários?

Anna tem 9 anos, mora em Paris, leva uma vida bem confortável, estuda em colégio católico e sonha em ser princesa.
O ano é 1970.
Porém, tudo muda para a menina quando seus pais vão para o Chile e resolvem se engajar na luta política de Salvador Allende.
Sua mãe, que era escritora da revista Marie Claire (símbolo da elite francesa), decide escrever um livro feminista sobre o direito das mulheres ao aborto.
A família de Anna se muda para um pequeno apartamento, a menina passa a dividir o quarto com seu irmão mais novo e sua casa vive cheia de "homens barbudos".
Um verdadeiro pesadelo para uma criança que só queria ser princesa...

"A culpa é do Fidel!" é um filme lindo, sensível e divertido, contado sob a perspectiva de uma criança que não entende as mudanças que estão acontecendo em sua vida.
Um filme, aliás, para ser assistido por toda família. Seja porque mostra a importância da solidariedade (e o que é realmente ser solidário), seja porque mostra a questão do direito à escolha ou, simplesmente, porque mostra uma outra compreensão de mundo.

Ser filho de pais comunistas e revolucionários devia mesmo ser muito difícil. Mas, certamente, muito enriquecedor.
E o filme consegue comprovar isso brilhantemente, ainda que apenas nas cenas finais.
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Muito além de banha e farinha


Bonito e desesperador.
Assim eu diria que é o filme "Perfect sense" (ou  "Sentidos do amor", numa tradução bem chinfrim  que lhe deram).
A história é sobre um apocalipse dos mais aterrorizantes ever: uma epidemia faz com que as pessoas vão perdendo, uma a uma, cada um de seus cinco sentidos. O primeiro é o olfato. Depois, o paladar... E assim sucessivamente. Muito intrigante é que, antes de cada perda, há uma explosão de sentimento: tristeza para a perda do olfato, fome incontrolável antes da perda do paladar...
Em meio a essa epidemia há uma história de amor: duas pessoas que, apesar do caos que se estabelece no mundo, tentam se adaptar à vida.
Numa das cenas mais tocantes do filme, quando todos já perderam o olfato e o paladar, um dono de restaurante diz, sentindo-se completamente arruinado: "agora é banha e farinha. Porque é só disso que as pessoas precisam para sobreviver". Mas, a sobrevivência vai muito além de banha e farinha. E, aos poucos, as pessoas vão voltando a frequentar restaurantes apenas para ouvirem o tilintar dos copos e talheres, serem servidas, apreciarem a cor e a textura dos alimentos.
Além da capacidade de adaptação à vida, o filme faz uma relação bem interessante entre os sentidos e a memória. Quantas de nossas lembranças só existem porque as associamos ao cheiro ou ao sabor?
Achei o filme bem filosófico.
Aquele "e a vida continua" - embora todos estejam (estejamos!) caminhando para um fim iminente - é mostrado com maestria e me comoveu bastante.
Em momento algum da história há esperança de um final feliz. Porque não existe final feliz.
E só quem aprende a lidar com isso consegue viver a vida de forma mais plena e, paradoxalmente, mais leve também.



Cada dia mais perto


Há alguns dias terminei de ler o livro do psiquiatra Irvin Yalom, "Cada dia mais perto".
Trata-se do processo terapêutico entre ele e uma paciente, o qual nos é relatado através de escritos que ambos produzem após as sessões.
Não é um livro de ficção.
O processo foi verdadeiro, os escritos são verdadeiros. A única coisa que não é verdadeira é o nome da paciente, por razões óbvias.
Acompanhar, do início ao fim, uma terapia que não era nada fácil para nenhum dos dois (a paciente tem uma dificuldade imensa em se colocar verdadeira e inteiramente nas sessões. Já o dr. Yalom expressa várias vezes sua frustração ao sentir que a terapia não caminha como deveria, que eles dão um passo para frente e dois para trás) me foi bastante interessante.
Entrar em contato com a parte humana de um terapeuta, suas expectativas em relação à terapia, suas decepções e seus pensamentos a respeito da paciente foi, a princípio, constrangedor.
Mas, por outro lado, foi bem bonito ver como o psiquiatra conduziu a terapia de forma sempre consciente, mesmo quando revelava que não sabia muito bem o que estava fazendo ou pretendendo com determinadas ações.
Ele sabia que, no fundo, o processo com essa paciente seria por tentativas. Erros, acertos e vai e vem.
Sua prioridade era ajudar quem ele se propôs a ajudar.
E ele foi em frente com isso, apesar de todas as dificuldades.

"(...) Levantei-me e caminhei até ela, enquanto ainda estava sentada, para tomar sua mão (...). Acho que foi a primeira vez na vida que eu abracei um paciente assim. (...) E então ela saiu do consultório, não como uma personalidade inadequada. Ela saiu como Ginny, e eu sentirei sua falta".

Deve ser bem gratificante quando uma terapia termina assim, com um ponto final.
Ao invés de reticências...
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