domingo, 13 de outubro de 2013

O piano e as asas


Duas meninas.
Irmãs.
Uma queria ter asas. A outra queria um piano.
"Promete não voar muito longe quando tiver suas asas?".
"Só voo até onde o som do seu piano alcançar".
Davam os dedinhos: "Promete?". "Prometo!".
E riam.
O piano chegou antes das asas. E ela, todos os dias, sentava-se a sua frente e ensaiava algumas músicas. Enquanto a outra rodopiava em volta. Mesmo sem as asas, já ensaiava seus voos.
Queria a música perfeita e, insistente na perfeição, as mais belas notas flutuavam pela sala.
As duas. Todos os dias. Faziam música. Faziam sonhos.
"Veja como suas asas estão grandes. Você já pode voar".
Virou-se de costas para o espelho e percebeu as asas mais lindas que jamais pudera imaginar.
Abriu um sorriso tão doce e pediu: "Toque para mim!"
Com as mãos trêmulas, sentou-se no banco. Seus dedos finos e compridos alisaram as teclas do piano. Fechou os olhos e tocou.
Perfeita.
Quando parou, viu que não havia mais ninguém por perto.
A danada já tinha voado.
Ela sabia: longe, longe.
Chorou.
A música. Gravada no coração da irmã.
E agora, para sempre, por mais distante que voasse, ainda poderia escutá-la...
..........................................




domingo, 29 de setembro de 2013

Paraíso

A placa do carro da frente dizia "SP - Paraíso".
Ficou olhando devagar.
O carro comprido e preto mostrava um brilho lustroso em meio à poeira da estradinha onde estavam parados.
E, enquanto ele ia lento e pesado, jurou ver nas laterais do banco da frente umas peninhas brancas que pendiam das costas do motorista. Quis descer e correr até ele.
Mas o trânsito andou.
Que pena.
O Paraíso esteve logo a sua frente e ela deixou que ele fosse.
.......................



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Marte

Enquanto as amigas gritavam que iriam sumir no mundo, ela só pensava em sumir do mundo.
Tinha a terrível mania de complicar as coisas e, às vezes, desejava apenas ser o criado-mudo feliz de seu quarto fechado.
Um dia, leu a notícia: "Abertas as inscrições para quem quiser morar no planeta Marte".
Então ela, de fato, poderia sumir do mundo? Dobrou o pedaço de jornal em três partes e o colocou com cuidado embaixo do travesseiro.
Começou a se planejar.
Seria uma viagem sem volta, dizia a notícia.
Ótimo, ela pensou.
A ocupação do novo planeta está prevista para iniciar em 2023, dizia a notícia.
Fez a conta. Ainda estaria relativamente jovem em 2023.
Entrou no site de inscrição. Bastante detalhado, solicitava muitas informações a respeito de biotipo e estado de saúde. Fez o possível para responder de forma verdadeira, apesar de omitir algumas questões e enfatizar outras. "Como em um currículo", disse em voz alta na tentativa de se justificar. Aliás, era assim mesmo que estava encarando a inscrição: iria enviar um currículo para, quem sabe, ser selecionada a realizar o maior sonho de sua vida.
A campainha tocou.
Ela não quis atender.
De repente, as coisas deste mundo lhe pareceram fugazes demais.
Terminou a inscrição satisfeita por achar que preenchia todos os requisitos de uma moradora de Marte. E foi se deitar. Não sem antes dar uma boa encarada em seu criado-mudo e desejar-lhe boa noite.
Em dez anos estaria em outro planeta. Acreditou nisso.
E, até lá, viveria aqui como uma marciana. Assim, tentando desvendar um mundo ao qual, na verdade, nunca pertenceu.
.............................





quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O telefonema

Nunca esperou por uma ligação depois da virada do ano. Afinal, quem importava estava junto e, quem estava longe, ou já não estava mais ou achava não importar muito.
O ano estava indo embora e tinha sido especial. Nem tanto pelos acontecimentos, mas pelas pessoas que havia conhecido. Pessoas, não. Pessoa. 
Não era muito boa em conhecer pessoas e estava bem satisfeita por ter conhecido uma.
"Posso ligar pra você depois de meia-noite?", foi a pergunta da amiga.
E, se achava impossível se afeiçoar mais a alguém que há pouco tempo lhe era desconhecida, nesse momento o impossível se fez possível. "Pode!"
Meia-noite.
Beijou o marido, os filhos, agradeceu pelo ano ido e deu boas vindas ao que acabava de chegar.
E o telefone tocou. 
Tão bom quando os combinados são cumpridos!
Recebeu emocionada o desejo de um ano novo feliz.
E desejou como nunca ser feliz. 
Porque a vida, essa que já a havia sacaneado tanto, parecia ter finalmente dado uma trégua.
.............................




quinta-feira, 18 de julho de 2013

Preferiria não fazer

Ah, Bartleby! Ah, a humanidade!
Essas são as duas últimas frases do conto de Herman Melville, "Bartleby, o escrivão".
E estão ecoando para sempre dentro de mim.

Imagine você: seu chefe lhe pede algo como, sei lá, escrever a ata de uma reunião. E você, com toda calma e seriedade do mundo, responde a ele "Preferiria não fazer".
Assim é Bartleby.
Ao usar enfaticamente a expressão "I would prefer not to" (que algumas traduções apresentam como "Acho melhor não"), o personagem quebra completamente a expectativa de seu chefe advogado. Que não sabe como reagir. Que fica confuso. Que tem vontade de socar a cara de Bartleby e só não o faz porque o julga uma criatura honesta e extremamente passiva. "Se houvesse alguma inquietude, raiva, impaciência ou impertinência em seus modos, sem dúvida eu o teria demitido bruscamente do meu escritório".

Há tantas coisas que podemos preferir nesta vida. Fazer um trabalho chato certamente não é uma delas.
E aí está toda a força do personagem: ele não recusa o trabalho; ele só afirma que preferiria não fazer. Como obrigar alguém a preferir algo?, me diga, por favor.
...........

Meu primeiro emprego, enquanto ainda cursava a faculdade, foi de atendente de telefone em uma já extinta empresa telefônica. Eu tinha uma chefe mais ou menos boazinha: mais porque sempre me chamava para um café, conversava amigavelmente comigo, se interessava por mim; menos porque vivia me pedindo coisas extras para fazer, além de minha simples função de atender telefonemas.
Um dia, decidi que não queria ir trabalhar. E não fui. No dia seguinte, a chefe veio até mim e perguntou o motivo de minha falta. Não me dei ao trabalho de inventar uma mentira. Nem de contar alguma historinha triste para me justificar (e olhe que, na época, historinhas tristes não me faltavam).
"Porque eu quis", foi o que lhe respondi. Percebi que essa resposta a desconcertou completamente. E ela ficou alguns bons segundos parada, olhando pra minha cara (de pau, ela devia estar pensando) até que eu tomasse a iniciativa de voltar ao meu trabalho.
Nunca mais tocamos no assunto. E ela continuou do mesmo jeito, mais ou menos boazinha.
Talvez o fantasma de Bartleby tivesse baixado em mim naquele momento. Ou o do chefe advogado e narrador do conto tivesse baixado nela.
Vai saber.

O fato é que Bartleby é um personagem fascinante. E muito esquisito. E que com uma fala esquisita coloca todos a sua volta em situações igualmente esquisitas.

Enfim, um texto fantástico. Que você deveria ler. Mesmo não preferindo...

Ah, Bartleby.
Meu herói.
...........................




domingo, 30 de junho de 2013

Perdão

Um dia. Na grama seca do quintal de sua casa não menos seca, apareceu um punhado de flores amarelas.
Arrancou-as todas sem dó.
Tirou cada uma de suas pequeninas pétalas e as guardou num copinho de plástico velho.
A vida tinha lhe pedido perdão.
Mas veio tarde demais.
..................





domingo, 9 de junho de 2013

As três mulheres do adeus

Não eram bonitas. Tampouco elegantes. Mas eram amigas e isso lhes bastava. Andavam as três de mãos dadas, balançando os braços e rindo alto. Trocavam olhares cúmplices, segredavam uma no ouvido da outra e viviam assim, juntas. Carregavam no pulso uma pulseira dourada. Cada uma com as iniciais das outras duas em pedrinhas de strass. Porque brilhava bastante.
Costumavam sentar no meio-fio da calçada e passavam a tarde numa morosidade de cochichos, carinhos e cochilos.
No entanto a vida – sempre ela, aliás -  tratou de separá-las.
A primeira, sem escolha, se mudou com a família para uma cidade bem distante.
A segunda, sem muito querer, entrou na universidade e, traidora, foi se engraçar com os estudos.
A terceira, por puro protesto, trancou-se no quarto e dele não saiu nunca mais. Pendurou a pulseira ao lado da cama e se convenceu de tê-la pendurado não por saudade. Era só pra vê-la brilhar no escuro, repetia a si mesma todas as noites.
Em um dia triste, uma delas tomou coragem e escreveu a suas amigas: tinha vontade de encontrá-las novamente.
Estabeleceu-se, assim, uma infinidade de trocas de e-mails. Marcavam, desmarcavam, marcavam de novo. Por fim, o encontro ficou combinado na cidade onde cresceram e continuava sendo o mesmo lugar da terceira amiga que, por puro protesto, nunca a havia deixado.
O dia marcado, um domingo. E o encontro deveria acontecer numa pracinha por onde tantas vezes caminharam. A hora: três horas. Uma pra cada amiga, porque sempre muito bem souberam andar junto do tempo.
A primeira, então, se organizou toda para a viagem: tingiu o cabelo, pintou as unhas e escolheu o vestido.
A segunda adiantou os estudos. Ia passar o domingo sem olhar os livros.
E a terceira, trancada no quarto por puro protesto, passou a manhã ensaiando a sua saída. Tirou a pulseira da parede e a colocou no pulso, sem se importar com os pontos de ferrugem. Também nem se deu conta de que já estava bem apertada. Reparou apenas no brilho dos strass. E nas iniciais de suas amigas.
Então, às três horas de um domingo qualquer numa pracinha da cidade, as três mulheres se reencontraram. E se abraçaram por um tempo que só elas poderiam dizer. E riram das coisas antigas pois das novas não sabiam rir. E andaram pela calçada balançando os braços. Sem dar as mãos. Algumas coisas se perdem com o tempo e não há reencontro para trazê-las de volta.
De repente a terceira, por puro protesto, ergueu o braço e deu adeus a um carro que passou. Talvez só quisesse mostrar às outras a pulseira guardada e lembrada para o reencontro. Ou, talvez, só quisesse mostrar a si mesma a saudade de um tempo de pulseiras e  iniciais.
As amigas, porém, pareceram não enxergar a verdade por trás desse adeus. E elas riram e, sem muito pensamento, repetiram o gesto a um outro carro. E a um outro. E a outro.
As três agora andavam lado a lado, os ombros grudados e erguendo os braços para sempre, num adeus a todos pelo caminho: carros, passantes, cachorros e pássaros, até.
E foi assim. Que as amigas se reencontraram de fato. E enfim.
E foi assim. Que a terceira amiga, de repente, viu sua pulseira arrebentar e rolar até a sarjeta. E não voltou para tirá-la de lá. Sequer olhou para lá.
Nesta noite, ela decidiu dormir sem o brilho das pedrinhas.
E estava tudo bem.
..........................................